Seguranças rasgam cartaz e retiram moradora durante cerimônia em que Lula exaltava o “Novo Acordo de Reparação”
A tentativa do governo federal de celebrar o chamado “Novo Acordo de Reparação do Rio Doce” nesta quinta-feira (12/06/2025), em Mariana (MG), foi marcada por um episódio que expôs o contraste entre discurso oficial e realidade vivida pelos atingidos: Maria da Glória de Souza, moradora de Mariana, foi expulsa do evento por seguranças após protestar contra o acordo e os políticos presentes.
Em vídeo gravado por ela própria, Maria relata ter tido seu cartaz arrancado e rasgado por agentes de segurança enquanto era removida da Praça da Sé. Ela criticava a atuação do atual senador e ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de denunciar a manipulação do evento como propaganda estatal. Segundo a moradora, até mesmo pessoas identificadas com a esquerda se mostraram constrangidas com a repressão sofrida por ela.
“Eu fui calada por simplesmente dizer o que penso. Me tiraram do meu próprio território como se eu fosse uma criminosa, enquanto os verdadeiros responsáveis continuam soltos e ganhando com essa farsa de acordo”, disse Maria.
Assista ao vídeo da expulsão ( vídeo )
O Acordo de R$ 170 bilhões — Quem realmente se beneficia?
O evento promovido contou com seis ministros de Estado, tinha como objetivo anunciar os “avanços” do acordo bilionário de reparação pela tragédia-crime de 2015. No entanto, especialistas e moradores denunciam: o acordo favorece majoritariamente o Estado — e não as vítimas.
Como está dividido o acordo:
- R$ 100 bilhões: serão destinados a projetos de infraestrutura, universidades federais, hospitais públicos, centros de pesquisa e políticas do governo federal, estadual e municipal.
- R$ 32 bilhões: vêm das empresas envolvidas (Samarco/Vale/BHP) para programas gerais de reparação.
- R$ 40,7 bilhões: são destinados aos atingidos diretamente — com valores fixos e limitados entre R$ 35 mil a R$ 95 mil por pessoa, pagos em parcela única.
- É importante ressaltar que alguns municípios, como a própria cidade de Mariana, optaram por não aderir ao acordo e buscam reparação por meio de ações judiciais, principalmente na Inglaterra
O problema:
- O maior volume do recurso vai para instituições estatais, prefeituras, governos e universidades públicas, em vez de chegar diretamente aos moradores, comerciantes e trabalhadores afetados.
- A distribuição se estenderá até 2043, ou seja, quase três décadas depois do rompimento da barragem.
- Assinantes do PID (Programa de Indenização Mediada), ao aceitarem os termos, o cidadão afetado perde o direito de continuar ações judiciais no Reino Unido — onde os valores de compensação seriam potencialmente muito maiores.
Um evento com cara de palanque eleitoral
A cerimônia foi apresentada como um ato de “justiça social” e “cuidado com os pobres”, mas se desenrolou como um típico comício político. Além de Lula e ministros, participaram movimentos alinhados ao governo, como o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) e o MST. O espaço para críticas contundentes ou manifestações autônomas foi inexistente.
Enquanto discursos exaltavam ações futuras em áreas como saúde, educação e meio ambiente, moradores ainda enfrentam dificuldades básicas: sem indenização justa, sem reestruturação de suas comunidades e sem autonomia sobre suas causas.
A expulsão de Maria da Glória não foi apenas um incidente isolado — foi um símbolo claro do tipo de reparação que se quer impor: aquela onde só o Estado fala e os cidadãos escutam calados.
Mais do que nunca, os atingidos precisam de reparação justa, liberdade de expressão e respeito à sua dor — e não de um acordo que financia estruturas estatais às custas da perda do direito à justiça.